O Arquétipo do Soberano: o poder de ocupar o próprio lugar
Entre os grandes símbolos da experiência humana está a figura do Soberano: o Rei, a Rainha, o Imperador, a Guardiã do Reino. Muito mais do que uma representação de poder, essa imagem simboliza uma função psíquica relacionada à autoridade, à ordem, à responsabilidade e à capacidade de ocupar o próprio lugar na vida.
Na perspectiva de Carl Gustav Jung, é importante fazer uma distinção: o Soberano não é o Self. O Self representa a totalidade da psique e seu princípio ordenador. A imagem do Soberano pode, entretanto, expressar simbolicamente determinadas funções relacionadas à organização, à integração e à autoridade interior.
Por isso, o Soberano não precisa ser compreendido como alguém que domina os outros. Seu verdadeiro território é o próprio mundo interior.
O reino interior
Imagine a psique como um reino.
Dentro dele existem desejos, medos, memórias, impulsos, sonhos, conflitos, capacidades e aspectos rejeitados da personalidade. Alguns vivem no palácio da consciência; outros permanecem nas regiões desconhecidas do inconsciente.
O Soberano saudável não expulsa esses habitantes.
Ele os reconhece.
Ele observa o medo sem permitir que o medo governe.
Reconhece a raiva sem transformar a raiva em tirania.
Escuta a vulnerabilidade sem transformar-se em impotência.
Reconhece a Sombra sem entregar-lhe o trono.
É por isso que a verdadeira soberania começa quando deixamos de tentar governar o mundo externo e começamos a assumir responsabilidade pelo nosso próprio mundo interior.
O Soberano e a autoridade interior
A autoridade do Soberano não depende necessariamente de cargo, dinheiro, status ou reconhecimento.
Uma pessoa pode possuir grande autoridade social e, ainda assim, ser governada pelo medo, pela necessidade de aprovação ou pela necessidade de controlar os outros.
Da mesma forma, alguém sem qualquer posição de poder pode desenvolver uma profunda soberania interior.
A pergunta fundamental não é:
“Quanto poder eu tenho?”
Mas:
“Quem governa minhas escolhas?”
Quando a resposta é sempre o medo, a culpa, a aprovação alheia ou antigas feridas, o trono está ocupado por forças que não foram conscientemente integradas.
O processo de amadurecimento psicológico envolve recuperar esse lugar.
A sombra do Soberano
Todo arquétipo possui uma dimensão luminosa e uma dimensão sombria.
No Soberano, podemos perceber dois movimentos particularmente importantes.
De um lado está o Tirano.
Ele acredita que precisa controlar os outros para sentir-se poderoso. Impõe, domina, humilha, manipula e confunde autoridade com superioridade.
Do outro lado está a abdicação da soberania.
Aqui, a pessoa renuncia à própria capacidade de decidir. Entrega aos outros o poder sobre sua vida e passa a experimentar-se como alguém sem escolha.
É nesse segundo movimento que pode surgir a dinâmica da vitimização.
Entretanto, ser vítima de uma situação real não significa possuir uma personalidade vitimista. A vulnerabilidade pode ser uma experiência objetiva. A vitimização aparece quando a identidade começa a organizar-se permanentemente em torno da impotência.
O Soberano integrado encontra um terceiro caminho:
“Eu reconheço aquilo que aconteceu comigo, mas não entrego a isso toda a autoridade sobre aquilo que posso me tornar.”
O Soberano não domina: ele sustenta
Essa talvez seja a maior diferença entre poder e soberania.
O poder pode ser utilizado para dominar.
A soberania madura utiliza a força para sustentar.
Sustentar limites.
Sustentar decisões.
Sustentar responsabilidades.
Sustentar aqueles que dependem de nós.
E, principalmente, sustentar a própria consciência diante das turbulências da vida.
Por isso, o Soberano não precisa destruir aquilo que é diferente dele.
Ele consegue dialogar com a própria Sombra.
Não precisa negar sua fragilidade.
Consegue reconhecê-la.
Não precisa controlar todas as circunstâncias.
Aprende a escolher sua resposta diante delas.
O retorno ao trono
O desenvolvimento do Soberano é, simbolicamente, um retorno ao trono.
Não ao trono da superioridade.
Ao trono da responsabilidade.
É quando a pessoa começa a compreender:
“Minha vida não depende exclusivamente daquilo que acontece comigo. Existe também aquilo que faço com o que acontece comigo.”
Isso é autonomia.
Isso é responsabilidade.
Isso é autoridade interior.
E talvez seja justamente essa a grande mensagem desse arquétipo:
Você não precisa governar o mundo para tornar-se soberano. Precisa aprender a não entregar a ninguém o governo daquilo que, dentro de você, é responsabilidade sua.
O reino mais importante que alguém pode aprender a governar é aquele que existe dentro de si.
O Rei que Entregou a Coroa
Conta uma antiga lenda que, no centro de uma floresta cercada por montanhas, existia um reino chamado Eldor.
Seu rei era conhecido por sua força.
Ninguém ousava contrariá-lo.
Suas palavras eram leis, seus decretos eram cumpridos e seus soldados permaneciam constantemente junto às muralhas.
Entretanto, apesar de todo o poder que possuía, o rei vivia atormentado.
Tinha medo de perder o reino.
Medo de ser traído.
Medo de envelhecer.
Medo de que alguém descobrisse que, por trás da coroa, havia um homem inseguro.
Por isso, controlava tudo.
Controlava os ministros.
Controlava os soldados.
Controlava os comerciantes.
Até mesmo os pensamentos de seus filhos ele desejava controlar.
Quanto mais controlava, mais medo sentia.
Certa manhã, chegou ao palácio uma velha mulher.
Ela não carregava armas, riquezas ou títulos.
Apenas um cajado e uma pequena caixa de madeira.
O rei ordenou que a levassem até ele.
— O que deseja?
A mulher respondeu:
— Vim devolver-lhe algo que nunca deveria ter saído de suas mãos.
O rei franziu a testa.
— E o que seria?
Ela colocou a caixa sobre a mesa.
Dentro havia uma pequena coroa de ferro.
— Sua primeira coroa — disse ela.
O rei riu.
— Minha primeira coroa? Eu já possuo uma coroa de ouro.
— Essa é a coroa que todos podem ver — respondeu a mulher. — A que você perdeu foi a que deveria governar você.
O rei ficou em silêncio.
— Não compreendo.
A velha apontou para o peito dele.
— Você conquistou o reino, mas entregou seu trono ao medo.
Naquela noite, o rei não conseguiu dormir.
Pela primeira vez, começou a observar seus próprios pensamentos.
Percebeu que muitas de suas decisões não nasciam de coragem.
Nasciam do medo.
Mandava vigiar porque tinha medo de ser traído.
Punha pessoas de joelhos porque tinha medo de parecer fraco.
Exigia obediência porque não confiava em si mesmo.
E percebeu algo ainda mais doloroso:
ele havia confundido soberania com controle.
Na manhã seguinte, chamou seus conselheiros.
Todos esperavam novos decretos.
Mas o rei disse:
— A partir de hoje, não governarei mais pelo medo.
Os conselheiros ficaram assustados.
Alguns pensaram que o rei havia enlouquecido.
Então ele começou a fazer algo que nunca havia feito.
Escutou.
Escutou os agricultores.
Escutou os artesãos.
Escutou seus filhos.
Escutou seus inimigos.
E, sobretudo, começou a escutar a si mesmo.
Descobriu que dentro dele também existiam medo, raiva, tristeza, orgulho e fragilidade.
Durante anos havia tentado expulsá-los do reino.
Agora compreendia que eles também pertenciam à sua história.
Não precisava obedecer a cada um deles.
Mas precisava conhecê-los.
O reino mudou.
Não porque o rei se tornou mais poderoso.
Mas porque deixou de desperdiçar sua força tentando controlar aquilo que não podia controlar.
Anos depois, quando seus cabelos ficaram brancos, o rei chamou seu filho mais velho.
Retirou a coroa de ouro e colocou-a sobre a mesa.
— Meu filho, você deseja ser rei?
O jovem respondeu:
— Sim.
O velho rei sorriu.
— Então aprenda primeiro a sentar-se diante de si mesmo.
— O que quer dizer?
O rei apontou para o trono.
— Um homem que não consegue governar seus próprios medos sempre acabará tentando governar os outros.
Depois entregou ao filho a pequena coroa de ferro.
— Esta é a verdadeira coroa.
O príncipe a segurou.
Era pesada.
— Por que ela pesa tanto?
O velho rei respondeu:
— Porque ela não representa poder.
Representa responsabilidade.
Naquele instante, o jovem compreendeu.
A coroa mais difícil de usar não é aquela que coloca alguém acima dos outros.
É aquela que lembra que ninguém pode viver a própria vida em seu lugar.
E, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, o velho rei dormiu sem colocar guardas diante da porta.
Porque finalmente havia descoberto que o maior reino que precisava governar nunca estivera do lado de fora.
Estava dentro dele.
A reflexão
Quantas vezes confundimos soberania com controle?
Quantas vezes tentamos controlar pessoas, circunstâncias e acontecimentos porque ainda não conseguimos sustentar aquilo que sentimos dentro de nós?
E quantas vezes entregamos aos outros o poder de decidir quem somos, quanto valemos ou qual caminho devemos seguir?
Talvez amadurecer seja justamente aprender a retornar ao próprio trono.
Não para dominar.
Não para controlar.
Mas para assumir a responsabilidade por aquilo que é nosso.
O verdadeiro Soberano não é aquele que controla o reino.
É aquele que não abandona o próprio trono.
Estas são questões profundas. Conflitos de responsabilidades, limites, tolerância e suporte. Onde um começa o outro termina.
Onde começa a nossa responsabilidade e ou a do outro nas nossas escolhas e posições? Até onde devemos sustentar aqueles que de alguma forma, dependem de nós? Se os sustentamos indefinidamente, sem limites, não estamos os tornamos fracos e dependentes?
Se estas e outras questões o/a atormentam, já está na hora de iniciar a sua jornada de autoconhecimento.
Preencha o Formulário de Acolhimento Interior, esse é o primeiro passo!
Boa sorte! Desejo que faça a escolha certa!
Comente, compartilhe e reflita!
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